Logo de manhã, meu pai foi entregar um exemplar do Relatório Azul ao Departamento de Direitos Humanos da província de Buenos Aires. Ele havia programado por telefone o encontro com a Roberta, assessora do setor.
Indagamos ela sobre a relação do povo com a ditadura, o que envolvia a questão do seqüestro do Julio Lopez. Ela nos disse que o assunto é delicado. Na Argentina, se estima que cerca de 20.000 pessoas desapareceram durante o regime militar, algo descomunal perto do que ocorreu no Brasil, com cerca de 700 desaparecidos.
Assim, segundo ela, a relação do povo com as forças armadas é muito diferente. No Brasil, o povo tem medo do exército, o que resulta numa certa indiferença quanto a assuntos nacionais. Lá, ao contrário, o povo vai pra rua protestar, porque a ditadura foi muito sofrida. O movimento das Mães da Praça de Maio, de mães de desaparecidos durante o regime, dá uma volta na praça à frente da sede da Presidência nacional toda semana, desde os tempos do regime, em protesto à indiferença do governo no trato de sua causa.
Roberta também contou que, em Buenos Aires, há museus nos locais que sediaram os quartes-generais das torturas, que ficam abertos todo o ano, exceto em janeiro (exatamente nas nossas férias, que droga!). Um dos prédios sediava um centro de torturas do regime e também era a casa de um general. Enquanto a filha do general fazia sua festa de aniversário, no topo do prédio, estudantes torturados urravam nos porões do edifício.
O tema é tão macabro que envolve todos tipo de crimes, inclusive paternidade fraudelenta. Os generais pegavam os filhos das esquerdistas capturadas nascidos na prisão e, com pena de não liquidar os bebês, entregavam para outra família militar cuidar. A criança cresceu normalmente. Os frios coronéis só não esperavam que as Mães da Praça de Maio criariam um banco com o DNA dos familiares de desaparecidos. Moral da história: hoje, já há 80 casos identificados de paternidade fraudulenta. Alguns desses jovens mudam sua vida quando descobrem que foram parte de um conluio militar, largando suas famílias de criação.
Que light essas histórias sobre a ditadura na Argentina, não acha?
Depois da visita ao departamento municipal, fomos no Congresso tentar encontrar um deputado pra falar sobre as papeleiras de Gualeguaychú. Não encontramos ninguém. Os mandatos dos deputados indicados pelos manifestantes já tinham acabado.
Resolvemos almoçar num buffet no centrão da capital federal. À primeira vista, o restaurante parecia normal, mas algo cheirava estragado. Tinhamos que tirar a prova real: o caixa tinha olhos puxados. Tudo era uma farsa: o restaurante era chinês! (Lembre-se que é regra universal: o resturante chinês tem sempre, sempre um caixa chinês, apesar da comida parecer local.)
Pensamos em largar tudo e dar o fora, afinal, aquilo era propaganda enganosa. Contudo, já tinhamos nos servido. A comida já estava na nossa boca. A solução foi engolir, a contra-gosto.
Depois do almoço, demos uma banda pelo centro. Ainda darei um caldinho no Nando no chafariz:
Chegamos era umas 17h30 na Praça de Maio, a manifestação começaria em uma hora. As emissoras de trevê locais já se movimentavam, e ficamos por ali conversando com um cara que também aguardava a manifestação, sentado no banco da praça.
O nome dele era Diego. Conversamos com ele sobre várias coisas, especialmente sobre a relação da Argentina com o mundo... o cara disse que os castellanos são loucos pelos Estados Unidos e ignoram qualquer outra influência... tudo coerente com a grande quantidade de bairros e locais com nome em inglês em Buenos Aires. Sua dica de restaurante na capital era um espeto corrido de carne de gado em Palermo ou na Recoleta. Tenedor libre chino (buffet chinês), nem pensar! "Tu só vai encontrar ratón lá..."
A impressão do Diego sobre o Brasil era muito engraçada... ele pensa que a gente vive no meio da floresta, cercado de aborígenes (índigenas)! Tive que dizer pra ele que a proporção de índigenas é maior na Argentina que no Brasil, basta olhar pra cara dos manifestantes que se começavam a se amontoar: todos índios! Isso me sugeriu que o grosso dos pobres argentinos são índios, enquanto que a maioria dos pobres brasileiros são negros.
Naquele furdunço, um turista gringo meio perdido veio me perguntar o que era a manifestação. Expliquei pro americano, de Washington, o que acontecia... o cara tava procurando a sede da presidência argentina, que fica bem ali, que ele referia como "the Pink House"...
Ainda encontramos com um gaúcho no meio daquela multidão, o Joaquim... o cara, colorado e universitário de biologia marinha em Rio Grande, tava dando uma de viajante: tinha saído de bike da cidade gaúcha em dezembro... que férias, heim?
No fim, o pai entregou o livro pra uma das Mães da Praça de Maio e o Diego se despediu da gente.
Parece coincidência, mas a Roberta havia nos dito que há muitos policiais à paisana em Buenos Aires, além de vários militares infiltrados na polícia... no meio da passeata, vi um cara com aparência "normal" colocando seu terno dentro de uma viatura... ou seja, um policial à paisana... Moral da história: deduzimos que o Diego só podia ser um deles, um informante de um militar ávido por informação sobre a manifestação. Que conspiração, heim?
Naquela noite, demos uma banda no Shopping Abasto, um baita shopping da capital. O pedaço tinha lojas de todas marcas líderes em tênis, Nike, Adidas, Puma, Reebok, não faltava nenhuma... cidade grande é outra coisa.
Estômagos roncando, é hora da janta. Saímos do Shopping e fomos num restaurante logo à frente. O local era um boteco, tinha umas máquinas de bingo, videokê no fundo... Enquanto esperávamos o garçom trazer o cardápio, uns bebuns sentados na mesa ao lado ficavam nos olhando... os caras tinham um look flautista-de-machu-picchu-perdido-em-porto-alegre.. ah, não, chega! Comer fitado por uns gambás andinos é demais! Levantamos da mesa e fomos procurar outro restaurante.
Resolvemos então jantar num restaurante peruano. Na verdade, quem resolveu comer ali foi eu e o pai, porque o Nando não queria. Os peruanos tem a tradição de servir em grande quantidade, e a ala minuta que pedi correspondeu à expectativa: uma montanha de arroz e batata. Mas o pedaço, apesar de parecer limpinho, nos reservava uma surpresa. Eu e o pai tranquilamente jantávamos, quando, subitamente, um ratón cruzou pela borda da parede do restaurante. Poucos clientes viram o ratón, gargalharam, e continuaram a comer, esperando que ele aparecesse novamente, e não é que o bichano voltou? Deu pra ver direitinho as patas e o rabo dele... o engraçado foi que todo mundo ali começou a rir, afinal, já estavam comendo.. tudo no espírito "o que não mata, engorda"... que inveja da higiene do peruano...
O Nando, pra variar, acabou comendo pizza do Uggi's naquela noite.

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